Roma, 23 de Outubro de 2009.
Christopher vasculhava os arquivos de casos antigos em busca de alguma ponta solta sobre a qual pudesse se debruçar e ocupar sua mente. Esses tempos de calmaria eram um verdadeiro tormento; não haviam chamados urgentes a atender nem ameaças mortais a desafiar. Era como a calmaria no alto mar. No entanto, essa calmaria era a que precederia uma grande tempestade.
Enquanto relia o caso "Lupinos em Nova York", o telefone toca. Era o Irmão Frederico. Frederico era uma espécie de mentor, que o acolheu Christopher quando criança durante a fuga da sua mãe.
Quando o Irmão Frederico ligava, era sinal que havia trabalho a fazer.
Foi uma ligação rápida e Christopher fora convocado para uma reunião urgente na Abadia, dentro de 2 horas.
Christopher caminhava pelos corredores pomposamente decorados, cheios de entalhes e afrescos. Uma estrutura digna da sede mundial da fé católica. Em frente à porta do local de reuniões ele bate, sendo recepcionado por um outro Irmão.
A expressão no rosto dos quatro desconhecidos presentes dentro da sala era de angústia e incerteza e a expectativa sobre os talentos de Christopher era facilmente perceptível. Ele se sentou e o Irmão Frederico começou:
- Christopher, esses são o Padre Peter, Padre Jhonatan, e os Irmãos Wilson e Cleeveland, da Inglaterra.
- Prazer em conhecê-los, Eminências. - disse Christopher, polidamente.
Cada um assentiu educadamente. Frederico continuou.
- Temo que as coisas na Inglaterra não estejam indo bem. Há rumores de que algo muito estranho tem acontecido em Londres nos últimos dias. - o Ir. Frederico deu a deixa ao Padre Jhonatan.
- Os últimos dias foram de caos em Londres. Assassinatos, crimes brutais, pessoas relatando coisas "estranhas" acontecendo... - o padre deixou transbordar toda sua inquietação nesta breve descrição.
- Christopher, - começou Frederico - os cardeais te designaram para investigar este caso. Você segue para Londres ainda hoje com os irmãos.
- E quais sãos as habilidades desses irmãos, se me permitem a pergunta? - Cristhopher perguntou - Pois uma coisa é cuidar de mim. Outra é cuidar dos outros.
- Sr. Christopher, viemos pedir ajuda porque não pudemos lidar com o problema. O povo de Londres precisa de paz e nós somos responsáveis por dar essa paz à eles. - respondeu o Padre Peter.
- Somos apenas padres. - continuou o Padre Jhonatan.
- Amém. - disse Christopher.
- Bem, é tudo. Agora, por favor, preparem-se para a viagem. - disse Frederico. Seu tom era urgente.
Christopher voltou para seu apartamento, munindo-se de seus cigarros no caminho. Preparou seu notebook e suas poucas roupas numa mala modesta. Repentinamente, o Irmão Frederico aparece a porta, com expressão preocupada.
- O que foi, meu amigo? - perguntou Christopher.
Frederico adentrou o quarto aflito.
- Preciso alertá-lo de algo. - sua expressão era grave - Muito cuidado em Londres, Christopher.
Christopher estava incrédulo.
- O que pode haver que nós não tenhamos ainda enfrentado? Eu sou só um rastreador, esqueceu?
A expressão de aflição não abandonou Frederico.
- Eu não sei praticamente nada, mas sinto que devo alertá-lo. Existem pessoas que têm um propósito semelhante ao seu. E elas podem ser aliadas ou inimigas. - E, repentinamente, a expressão grave se desvaneceu em um sorriso encorajador. - Mas o que eu estou fazendo? Tentando aterrorizá-lo? Confiamos em você. Todos nós.
Ele sorriu um pouco mais descontraídamente. Pousou a mão sobre a cabeça de Christopher e disse em tom quase ritualístico:
- Que Deus te abençoe e te guarde. Que resplandeça o teu rosto sobre ti e tenha misericórdia de ti. Que levante o teu rosto sobre ti e te dê paz.
Entregou-lhe um terço de madeira, despediu-se e partiu.
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Um táxi veio pegá-lo e o levou até o aeroporto onde os "clientes" já aguardavam. O vôo sai sem problemas e em algumas horas o avião penetra o território britânico.
Pontualmente às 23:17, o horário previsto de chegada do vôo, o avião taxiava lentamente pela pista próximo ao local de desembarque.
Eles tomam outro táxi até Westminster City, até a Abadia de Westminster.
- Seja muito bem-vindo ao nosso humilde lar. - disse o Padre Peter, ao adentrarem a Abadia
Se o tom de sua voz não fosse tão simples e recatado ele estaria sendo absurdamente sarcástico. A Abadia é um Palácio gótico assustadoramente grande. Um tesouro arquitetônico com mais de 500 anos.
Os irmãos conduziram Christopher até seus aposentos, simples, porém bastante confortáveis.
- Eu gostaria dos exemplares dos jornais mais famosos da cidade dos últimos dias. - pediu Christopher.
- Sim, é claro. Vamos providenciar imediatamente.
Christopher instalou-se no seu pequeno quarto. Havia uma cama de solteiro com lençois muito limpos, dois criados mudos, uma escrivaninha e uma cadeira no canto esquerdo. Também uma pequena janela no fundo do quarto, quase um basculante de tão pequena.
Ele passa a estudar os jornais, as manchetes do tipo: "Onda de assassinatos brutais assola Londres!", ou "Sequencia de crimes na noite de Londres. A população pede socorro.". Christopher começa a analisar as fotos em busca de algo que pudesse revelar o tipo de coisa com que estavam lidando até que uma foto no The Times traz algo importante aos olhos de um investigador: as vítimas foram evisceradas por um objeto não cortante; a carne parecia rasgada. A conclusão veio como num estalo: rasgadas por dentes. Vampiros.
Christopher não podia conter o turbilhão de idéias vindo à mente, enquanto fazia as devidas marcações e enviava as primeiras informações e provas ao Vaticano por e-mail, era preciso ver de perto, sentir a cena dos crimes. Ainda antes de sair, tentou negociar uma possível visita ao necrotério para examinar os corpos, e pegou um táxi.
- Boa noite, Senhor. Qual o destino?
- O lugar mais agitado dessa cidade.
- Ah, sim. Então o senhor deve ir ao Soho.
- Então é pra lá que eu vou. Não precisa se apressar. Pode pegar um caminho um pouco maior, quero conhecer a cidade.
- Sem problemas.
As ruas estavam bem mais desertas do que deveriam estar. Reflexo dos ultimos acontecimentos trágicos.
- Essa onda de crimes. Já tinha acontecido por aqui antes? - perguntou Christopher ao taxista.
- Não, senhor. Nunca houve esse tipo de coisa por aqui. Pelo menos, não desse jeito.De vez em quando algum lunático sai por aí matando gente mas dessa vez nem parecia humano.
O taxista continuou.
- A vizinha da amiga da minha prima que conseguiu escapar dos caras!
- Sério!? - Christopher estava incrédulo. Seria sorte demais encontrar uma pista na primeira pessoa com quem ele cruzava. - E o que ela disse, como foi?
- Ela estava aterrorizada.... pareciam vândalos enloquecidos... matavam as pessoas sem pestanejar - agora o taxista parecia animado em poder contar a história.
Ele continuou.
- Eles invadiam as festas e começavam a matar as pessoas. E, do dia pra noite, sumiram!
- Mas como eles matavam as pessoas? - Christopher estava muito interessado na narrativa do taxista. - Armas, facas, tiros?
- Ela estava numa festa quando começou uma gritaria... um cara veio pra cima dela.... ela falou que não tinha nenhuma arma na mão.... e começou a ganir pra ela como se fosse um cachorro.. repuxando os lábios e mostrando os dentes... até hoje está traumatizada. Pobre coitada.
- E aí? -
- Aí no meio da confusão alguém o empurrou. E ela correu gritando. - encerrou o taxista. Parecia perplexo com sua própria história.
- Posso fumar em seu taxi meu senhor? Assim, eu sou um repórter amador, será que seria muito pedir para que você pudesse me arrumar uma audiência com essa jovem?
- Ah não sei! Ela está aterrorizada! Um amigo me disse que eles são ex-presidiários revoltados que saem por aí esfaqueando e eviscerando os outros.
- Eu dou eu telefone, ela me procura e marca o local, não sou um assassino. E sei que todos devem estar desconfiados.
- Bem, eu vou entregar. Agora, não garanto se ela vai.... - ele se interrompeu - Chegamos.
- Meu amigo, muito obrigado pela conversa, pela gentileza, é como dizem: " Os ingleses realmente são gentlemen".
- Por nada, sempre que quiser senhor. São 80 libras.
- Aqui tem 100 libras, fique com o troco. Mas me prometa ao menos tentar um contato com essa jovem. Tome meu cartão também, e me dê o seu caso precise dos seus serviços.
- Absolutamente, senhor. Obrigado. O senhor é muito generoso.
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O Soho, um distrito de entretenimento que ficou conhecido pela sua indústria do sexo e vida noturna, estava apinhado de pessoas. As boates funcionavam à toda e havia muita gente nos restaurantes e bares. Christopher passeava incrédulo pelas ruas que não se pareciam em nada com suas idéias sobre Londres.
- Uma cidade do pecado bem no meio da elegância inglesa? É... parece que vou me divertir em Londres. - pensava.
Uma boate chamou-lhe a atenção. Parecia bem grande, ocupava uma grande área do quarteirão, e a fila na entrada parecia ser a maior. Um neon preto-arroxeado com o nome "Noir" dava-lhe um aspecto sombrio. Havia quase uma centena de jovens estavam na fila, todos com expressões "mortas" tipicamente góticas. Christopher puxou seu cigarro e seguiu até a fila, tendo o cuidado de inteirar-se dos assuntos que circulavam pela fila ouvindo atentamente. Coisas como "finamente reabriram" e "crime chocante" era o assunto do pessoal à frente dele, que resolveu perguntar.
- Desculpe, sou novo na cidade. Ouvi dizer que houve um crime e a boate está sendo reaberta, é verdade?
Um dos três jovens do grupo da frente se virou com uma expressão de "cemitério à meia-noite" respondendo.
- É, fecharam por uns dias.
- Qual a razão? - Christopher continuou.
- Porque durante aquele doidera que tava acontecendo pela cidade, os filhos da puta vieram aqui pra acabar com a festa e acabaram matando gente.
- Mataram gente na boate?
- É... foi sim. A polícia fechou pra investigar mas não encontraram nada além de sangue e tripas espalhadas por aí.
- E... por acaso você não sabe quem é o dono da boate?
- Ah, é um ricaço azarado. Uma semana depois de comprar a boate e reabrir acontece uma porra dessas.
- E qual seria o nome desse ricaço? Sabe por que a boate foi vendida?
Uma menina atrás de vocês pigarreou e interrompeu a conversa.
- A boate tava falindo. O cara comprou do antigo dono por preço de banana, reformou tudo e abriu de novo. E a grana tá rolando - ela apontou a fila com o queixo - a casa tá lotada. Mesmo depois dessas coisas que aconteceram na semana passada.
Christopher incluiu a garota no círculo que se formara e perguntou.
- Mas, acontece alguma atividade ilícita aí dentro? Vamos lá... é droga, não é?
Eles se entreolharam desconfiados e sem graça.
- Não tem problema, eu também gosto. - Christopher tentou encorajá-los.
Silêncio.
- Qual é, não sou da polícia não.
- É... é só pra... dar uma viajada! - um deles solta. - Aí dentro tem coisa da boa.
- Mas é coisa antiga ou só começou agora com essa gestão nova?
- Bem, se você quiser mesmo me ajude procura o Professor .